Para muitas pessoas pode parecer estranho, mas existe uma maneira de explorar o mundo que nos afasta dos monumentos convencionais e nos imerge no silêncio da memória: o necroturismo.
Essa prática, que mobiliza milhares de viajantes todos os anos, consiste em visitar, investigar e admirar cemitérios ao redor do mundo.
Embora existam clássicos indiscutíveis como Montparnasse em Paris ou La Recoleta em Buenos Aires, o viajante apaixonado por história encontra beleza em qualquer cemitério, independentemente do seu tamanho.
No Uruguai, por exemplo, o Cemitério Central de Montevidéu é um verdadeiro museu a céu aberto que abriga obras espetaculares de mestres como Azzarini e Zorrilla.
Mas o que realmente buscamos quando caminhamos entre os túmulos com nossas câmeras?
O Olhar Antropológico: Um Espelho dos Vivos
O interesse por esses espaços vai muito além de anedotas ou da busca pelo túmulo de alguma figura ilustre.
Como fotógrafo e antropólogo, entendo os cemitérios como repositórios de monumentos, arte funerária e tradições.
A morte é parte inseparável da vida. Assim como a arquitetura de uma cidade nos revela como vive sua sociedade, os cemitérios refletem com precisão suas hierarquias, papéis, modas e imaginários sociais.
Observando os mausoléus, podemos inferir a riqueza, o poder ou a fé daqueles que os habitam.
Mas também vemos os excluídos: muitos cemitérios sepultam os infames, os traidores ou os suicidas sem nome ou fora das seções principais, demonstrando que somos diferentes não apenas na vida, mas também na morte.
Como bem resumiu o cineasta Pier Paolo Pasolini: «A forma como a sociedade trata seus mortos é um reflexo de como tratará os vivos.»
Um cemitério é, em essência, o retrato mais honesto de uma cultura.
A visão do autor: como fotografar o silêncio
Ao documentar um cemitério, o desafio fotográfico é enorme. Nos deparamos com melancolia, mármore frio e quietude absoluta. Meu conselho ao criar um ensaio visual nesses espaços é buscar luz e textura. O preto e branco costuma ser um grande aliado para eliminar distrações da imagem e focar no drama da escultura e na expressividade da arte funerária.
Trata-se de capturar a atmosfera e o respeito que esses «museus a céu aberto» inspiram. Explorá-los com a lente nos proporciona informações valiosas sobre as pessoas e os costumes de um lugar.
O debate sobre o «tanaturismo»
O turismo em cemitérios está tão profundamente enraizado na Europa que existe uma Associação Europeia de Cemitérios Singulares, uma rede que conecta 150 cemitérios em quase 50 cidades.
No entanto, esse fenômeno, também conhecido como «tanaturismo», gera debates.
Seus detratores o rejeitam por motivos religiosos ou porque acreditam que o local de descanso eterno de um ser querido exige discrição.
Ao contrário, aqueles que o defendem entendem que ele promove a preservação de espaços que guardam patrimônio histórico e artístico.
Pessoalmente, acredito que o turismo em necrópoles veio para ficar e traz benefícios para as economias locais, que podem agregar valor às suas cidades oferecendo passeios e visitas guiadas com equipe especializada. Para o visitante ou fotógrafo, é uma oportunidade de descobrir arte, memória e história em uma experiência única.

