Introdução
Quando pensamos em ilhas, nossa mente muitas vezes vagueia para paraísos exóticos e distantes. No entanto, a apenas 21 quilômetros da costa de Montevidéu, surge um pedaço de terra que esconde um passado turbulento.
A Ilha de Flores, uma paisagem onde o vento esculpe as ruínas e o som de milhares de gaivotas quebra o silêncio, é um destino fascinante para aqueles que buscam desvendar a memória através da fotografia.
A perspectiva antropológica: prisão, lazareto e lendas
Descoberto no Domingo de Páscoa de 1527 por Sebastião Caboto, este pequeno território de 3.100 hectares guarda os capítulos mais sombrios e complexos da história uruguaia.
Caminhando entre suas muralhas em ruínas, passa-se por cima de um antigo Hotel de Imigrantes que funcionava como lazareto para quarentenas obrigatórias, e por cima de uma colônia de leprosos que incluía um crematório trágico.
Mas a ilha também foi uma prisão política, abrigando desde apoiadores de Aparicio Saravia em 1904 até opositores do golpe de Terra, como o ilustre anarquista Simón Radowitzky, e trabalhadores sindicalizados em 1968.
Hoje, deserta de humanos, a ilha é um parque nacional recuperado pela natureza: gaivotas e milhares de coelhos — curiosamente introduzidos por antigos faroleiros para substituir as galinhas — são seus únicos habitantes permanentes.
A isso se soma o misticismo das lendas locais, que falam de luzes inexplicáveis e aparições que vagam entre as ruínas do crematório.
A visão do autor: como documentar o isolamento e o tempo.
Fotografar a Ilha das Flores é enfrentar o desafio de retratar a ausência. Como fotógrafa, interesso-me em capturar como «boa parte de suas muralhas permanece de pé até hoje, como se quisessem salvaguardar suas almas».
Ao documentar este lugar, o vento e a névoa tornam-se elementos fundamentais da composição. Minha abordagem visual busca contrastar a verticalidade estoica do farol histórico de 1828 (aquele que nos custou as Missões Orientais) com a horizontalidade dos telhados desabados.
Para capturar essa atmosfera, recomendo trabalhar com a escala: usar bandos de gaivotas ou a imensidão do Rio da Prata na composição para enfatizar a fragilidade e o isolamento das construções humanas diante da natureza implacável.
Explorar essa paisagem arruinada, repleta de fantasmas, é essencial para quem sonha com ilhas misteriosas, repletas de memórias e lugares esquecidos.
A fotografia aqui não apenas registra ruínas, mas também resgata a história.
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