Há dias em que pegamos a câmera sem saber exatamente o que queremos fotografar. Não é aquele impulso claro de quem viu uma luz interessante ou um gesto que precisa ser guardado. É outra coisa: uma vontade difusa de apontar o olho para algo, qualquer coisa, só para sentir que ainda estamos em contato com o mundo. Se você já passou por isso, sabe do que estou falando. E não, não há nada de errado nisso.
Durante a pandemia, pesquisadores de comportamento do consumidor observaram algo curioso. Quando o isolamento social bloqueou as formas mais óbvias de satisfazer necessidades de pertencimento e reconhecimento (aquelas que Abraham Maslow situava no topo da sua hierarquia, logo depois das necessidades básicas de sobrevivência e segurança), o consumo não desapareceu. Ele mudou de natureza. Deixou de ser majoritariamente utilitário, comprar o que resolve um problema concreto, e passou a ser hedônico: comprar, ou fazer, ou fotografar, para sentir alívio emocional, alegria, fantasia. Um relatório da Kantar IBOPE Media de 2020 mostrou que 72% dos usuários de internet passaram a consumir online alguma categoria nova de produto durante esse período.
Acho que a fotografia opera exatamente nesse mesmo mecanismo psicológico, só que raramente falamos sobre isso. Nos meus anos como professora, vi alunos atravessarem lutos, separações, mudanças de cidade, e recorrerem à câmera não porque tivessem um projeto fotográfico definido, mas porque precisavam fazer alguma coisa com as mãos e com o olhar enquanto o resto da vida parecia fora de controle. A câmera, nesses momentos, deixa de ser ferramenta de registro e vira uma espécie de prótese emocional: um jeito de segurar algo firme quando tudo o mais está solto.
Isso explicaria também por que, em momentos de crise pessoal, muita gente entra naquilo que costumo chamar de spam fotográfico: fotografar tudo, o café da manhã, a rua vazia, os próprios pés, sem critério aparente, quase compulsivamente. Não é falta de talento nem de foco. É o mesmo mecanismo que levava as pessoas a comprar coisas que não precisavam durante o confinamento: uma tentativa legítima de preencher, com estímulo sensorial e gesto criativo, um vazio que a vida não estava conseguindo preencher de outra forma.
O que me interessa aqui não é patologizar esse gesto, mas dignificá-lo. Fotografar sem propósito claro num momento de vulnerabilidade não é sinal de que você não sabe o que está fazendo. É, muitas vezes, a forma mais honesta de processar algo que ainda não tem palavras. A imagem chega antes do discurso.
Da próxima vez que você se pegar com a câmera na mão, sem saber bem o que quer fotografar, talvez valha a pena parar um segundo antes de sair disparando. Não para se censurar, mas para se perguntar: o que estou tentando preencher agora? Só a pergunta já transforma o gesto de disperso em consciente, e é exatamente aí que mora a diferença entre fotografar por fotografar e fotografar como quem se escuta.

Fotografia de Jimena Mèndez. Uruguai.

