INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: SONHAM OS ANDROIDES COM IMAGENS SINTÉTICAS?
Escrevi as primeiras linhas deste texto no que hoje parece ser um mundo muito distante: o ano de 2019. Naquela época, lendo sobre motores de busca e algoritmos, lembrei-me do conto de Philip K. Dick que deu origem ao filme Blade Runner: «Os androides sonham com ovelhas elétricas?».
No livro, ambientado em um então longínquo 1992, uma guerra mundial havia exterminado quase toda a vida do planeta, levando os humanos a terem animais elétricos como animais de estimação. Na memorável adaptação para o cinema, Ridley Scott nos apresenta os replicantes: seres artificiais com capacidade de aprender e interagir, criados para realizar trabalhos perigosos. Mas eles aprendem tanto que desenvolvem intelecto autônomo, rebelam-se e lutam pela sua existência. Eles queriam viver independentes, sem serem escravos.
Longe ficaram essas distopias do cyberpunk dos anos 90, onde a arte e a ciência se perguntavam o que nos faz humanos e se as máquinas poderiam ter uma alma. Mas a essência dessa pergunta nunca foi tão atual.
De RankBrain à Era da Pós-Fotografia
Quando rascunhei este texto em 2019, a grande revolução da IA no nosso cotidiano era o RankBrain do Google. Era fascinante e assustador: a máquina começava a desenvolver um aprendizado automático (machine learning). O buscador não analisava apenas palavras, mas contexto, semântica e padrões de comportamento em milésimos de segundo. Passamos, de forma quase imperceptível, de usar a tecnologia para confiar cegamente nela. O algoritmo passou a decidir o que era ou não relevante para nós, moldando a nossa visão de mundo.
Hoje, a discussão foi muito além do que lemos. A Inteligência Artificial invadiu o que vemos e o que criamos.
Se em 2019 a IA decidia qual site mostrar, hoje ela gera fotografias de pessoas que nunca nasceram, de lugares que nunca existiram e de momentos que nunca aconteceram. A máquina não apenas aprende; ela simula. As «ovelhas elétricas» de Philip K. Dick são, hoje, as imagens sintéticas que consumimos compulsivamente em nossas telas.
A Ilusão da Relevância e a Perda da Soberania
O problema central que eu apontava anos atrás apenas se agravou: nós delegamos o nosso poder de decisão.
Pensemos que todo algoritmo parte de uma programação humana e arbitrária. Nós damos os parâmetros básicos a partir dos quais a máquina continuará aprendendo. Essa programação é sempre enviesada, orientada por interesses econômicos e políticos. Somos conscientes disso? A grande maioria dos usuários é absolutamente vulnerável diante da tecnologia que usa, mas não compreende.
No campo da imagem, isso é devastador. Ao delegarmos a criação visual para a IA, estamos entregando a nossa identidade a um banco de dados global que padroniza a beleza, apaga as nossas raízes e impõe uma estética colonial e plastificada.
O Resgate do Imperfeito
Será que, assim como em Blade Runner, deveríamos continuar nos perguntando sobre a liberdade, a ética da manipulação e o limite impreciso entre o artificial e o natural?
Na era da imagem algorítmica, a resposta é sim. O papel do fotógrafo e do criador visual mudou. Já não precisamos da câmera para «fabricar» uma imagem perfeita — a máquina faz isso em segundos. O que precisamos é da câmera para registrar a verdade, o vestígio, o erro, a textura real do mundo. A nossa humanidade reside na nossa imperfeição.
Diante de um algoritmo que busca prever e padronizar, o ato de fotografar conscientemente converte-se em um ato de rebeldia. É a nossa forma de dizer, em um mundo de replicantes e simulações, que nós ainda estamos aqui.

